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GÊNIOS DO ESPORTE | JACKIE ROBINSON E A BARREIRA DA COR

Escrito em: 22/04/2017 às 15:55   /   por   /   comentários (0)

cabecalho jackie robinson

Foi inaugurada no dia 15 de abril de 2017, nos arredores do estádio do Los Angeles Dodgers, uma estátua de um ex-atleta de basebol. A cerimônia foi realizada antes do jogo entre Dodgers e Arizona Diamondbacks, ainda pelo começo da temporada regular da MLB. Os primeiros 40 mil torcedores receberam uma réplica da estátua em miniatura. O homenageado não é um dos maiores detentores de títulos, nem o detentor de mais recordes. Mas é talvez o maior vencedor de todos. Um homem que venceu preconceitos, crueldade e todo o tipo de insultos para dar oportunidade a todos os que vieram depois dele.

Vamos contar a história de Jackie Robinson, o primeiro atleta negro a atuar em uma das principais ligas do esporte americano. O homem que, em 15 de abril de 47 jogou uma partida da MLB. O primeiro negro a jogar entre os brancos.

A ORIGEM

Jack Roosevelt Robinson nasceu em 31 de janeiro de 1919, no Cairo, na Georgia. Sua família era a única negra em seu quarteirão, o que fez com que ele tivesse o preconceito no seu cotidiano desde cedo. Era o mais novo de cinco irmãos, sendo que eles foram os responsáveis por fazer com que ele seguisse o caminho do esporte. Especialmente seu irmão Mack, cinco anos mais velho, que foi medalha de prata nos 200m rasos nos Jogos Olímpicos de Berlim, 1936, perdendo por apenas 0s4 para o lendário Jesse Owens.

Mack Robinson correndo ao lado Jesse Owens, em Berlim, 1936. FOTO: Getty Images

Na universidade, já se destacou. Na UCLA, Jackie se tornou o primeiro atleta a ganhar “Varsity Letters” – prêmios de excelência em atividades na universidade – em quatro esportes: beisebol, basquete, futebol e pista. Saiu da universidade por falta de dinheiro e teve uma curta carreira no exercito, sendo dispensado, não sem antes ter problemas com o racismo.

Mas Jackie não teria um destino menos honroso que seu irmão. Mas não sem antes superar um caminho árduo e espinhoso.

Jackie durante os tempos da UCLA

Jackie durante os tempos da UCLA. FOTO: jackierobinson.com

A SEGREGAÇÃO NAS LIGAS AMERICANAS

O primeiro jogo de beisebol de que se tem notícia aconteceu em 10 de setembro de 1845. Já a Major League Baseball nasceria 31 anos depois, em 1876, sendo que à partir 1889, passou a ser segregada. Naqueles primórdios o esporte era coisa de brancos, com negros e latinos sendo excluídos até das ligas menores. Por isso, foram criadas a Negro Leagues, para que esses atletas pudessem atuar, por volta dos anos 1880.

O termo Negro League foi usado para referenciar os times negros profissionais quanto às sete ligas das quais fizeram parte, que tiveram relativo sucesso com início em 1920, e que são algumas vezes designadas como “Negro Major Leagues”.

Foi atuando nessas ligas que, anos mais tarde, Jackie começou no basebol. Encorajado por um ex-jogador do Kansas City Monarchs, Jackie tentou uma vaga no time e acabou disputando 47 jogos da temporada da Negro American League de 1945, incluído o Jogo das Estrelas. Se destacou e chamou atenção da MLB, principalmente de Branch RIckey, presidente e manager do Brooklyn Dodgers.

O CONVITE DE BRANCH RICKEY

Em 28 de agosto de 1945, Rickey e Robinson se reuniram. O contrato foi assinado oficialmente em 23 de outubro.  A preocupação de Rickey era contratar um jogador que não rebatesse os atos racistas, o que só complicaria as coisa. A conversa entre os dois ficou para a história:

Rickey: “Sei que você é um bom jogador. O que não sei é se você tem colhões.”
Robinson: “Você está procurando um negro que tenha medo de lutar?”
Rickey: “Robinson, estou procurando um jogador com coragem o bastante para não revidar.”

A histórica assinatura do contrato com os Dodgers. FOTO: Getty Images

E assim o primeiro passo foi dado, mas ainda havia um longo caminho pela frente. Cabe contextualizar que a segregação nos EUA estava consolidada. Os negros tinham que sentar nos bancos de trás dos ônibus, dormir em hotéis separados de brancos e comer em restaurantes somente em lugares reservados. E Jackie sofreu muito por ser pioneiro.

O DIFÍCIL COMEÇO DE JACKIE ENTRE OS BRANCOS

Sua primeira atuação como contratado foi contra o Montreal Royals, time das ligas menores ligado aos Dodgers. O jogo foi na Flórida, onde ele foi proibido de ficar no mesmo hotel com os companheiros de equipe. Dormiu na casa de um político local, que também era negro. E mais casos vieram.

Jackie Robinson atuando pelo Montreal

Jackie Robinson atuando pelo Montreal. FOTO: The Standard

Na cidade de Sanford, o xerife ameaçou cancelar jogos da equipe se Robinson e Johnny Wright, outro negro contratado posteriormente, continuassem treinando. Em Jacksonville, os portões do estádio foram trancados com cadeados, por causa dos dois.

Só em 17 de março de 1946, graças a um forte trabalho de bastidores de Rickey com autoridades locais, Robinson conseguiu atuar num jogo contra os Dodgers. Foi a primeira vez na história que um jogador negro de uma liga menor enfrentou um time da MLB.

E Robinson seguiu galgando seu espaço. Em 18 de abril de 1946, jogou contra o Jersey City Giants, se tornando primeiro negro a disputar um jogo das ligas menores. Daí pra frente se destacou com atuações magníficas, tornando ídolo da torcida e ainda sendo alvo de constantes ofensas racistas nos jogos fora de casa. Ao fim da temporada, foi MVP da liga.

E foi dada a deixa para um marco histórico nos EUA.

A MLB E A HISTÓRIA SENDO REESCRITA

Robinson foi para a MLB estreou pelos Dodgers em 15 de abril de 1947, na vitória por 5 a 3 sobre o Boston Braves. Relatos da época dizem que dos 26.623 torcedores presentes, metade seriam de negros.

Jackie e os companheiros de Dodgers

Jackie e os companheiros de Dodgers. FOTO: Getty Images

O sucesso em campo veio rápido, com Jackie sendo apontado como um dos melhores segunda base da liga, mas isso contrastava com sua situação junto ao elenco. Se os adversários o odiavam, atletas do próprio Dodgers chegaram a ameaçar de não jogar junto com ele. falar com dirigentes que, se Robinson jogasse, eles não atuariam. Coube a Leo Durocher gerenciar o time que vivia tantas tenções nos bastidores. E teve pulso firme, proferindo uma frase que ficou para a história:

“Não me importo se o cara é amarelo ou preto, ou se ele tem listras como uma porra de uma zebra. Sou o gerente desta equipe, e digo que ele joga. Ele pode nos tornar ricos, e se algum de vocês não quiser, todos serão negociados”

A Liga estava tensa e chegou a ser arquitetada uma greve geral, comandada pelo St. Louis Cardinals, que só terminaria se Robinson saísse. Só não aconteceu, porque a notícia vazou antes. O jeito foi forçar Jackie a desistir. Os rivais o agrediam, ora com boladas, ora com entradas violentas. Num jogo contra o Philadelphia Phillies, Jackie foi chamado pelos adversários – orientados pelo técnico Ben Chapman – de “Preto”, além de ouvir gritos de “Volte para os campos de algodão”. O episódio foi triste, mas serviu para unir o time em torno do camisa 42.

Jackie Robinson e sua histórica camisa 42. FOTO: Getty Images

Ele não apenas jogou, mas se destacou entre os melhores jogadores de beisebol dos EUA, fato que abriu caminho para muitos outros atletas negros no esporte. A partir de 1948, com a entrada de outros jogadores negros na liga, as tensões se acalmaram e passaram a ser veladas. Robinson jogou em seis World Series e foi peça fundamental para a vitória do Dodgers no Campeonato de 1955. Foi seis vezes consecutivas para o All-Star Games, de 1949 a 1954, por fim, ganhou o título de MVP em 1949.

jackie robinson

Abaixo um vídeo sobre o título da World Series de 55.

SEUS ÚLTIMOS ANOS

Os últimos anos de Robinson foram complicados. Perdeu o filho de 24 anos, Jackie Robinson Jr. em um acidente de carro em 1971. Ele havia se recuperado da dependência química de drogas, contra o que Jackie tornou-se um forte ativista. Robinson sofria com doenças cardíacas e diabetes, o que fez com que ele perdesse a visão por um tempo. Pouco mais de um ano depois de seu, filho, em 24 de outubro de 1972 ele morreu, vítima de um ataque cardíaco, aos 53 anos de idade.

Seu funeral aconteceu no dia 27 de outubro de 1972 na Riverside Church, em Nova York. Foram 2.500 pessoas presente, entre ex-companheiros de equipe, outros jogadores do basebol, parentes e amigos. Dezenas de milhares de pessoas acompanharam seu cortejo até o Cypress Hills Cemetery, passando pela avenida que tem o seu nome, a Jackie Robinson Parkway.

O LEGADO DE ROBINSON

E Robinson virou uma celebridade independentemente da cor de sua pele. Virou livro, “Jackie Robinson: My Own Story”, de Wendell Smith. Buddy Johnson gravou a música “Did You See Jackie Robinson Hit That Ball?”. O filme “The Jackie Robinson Story”(ver trailer abaixo), com o jogador fazendo o papel dele mesmo, foi lançado em 1950. Até estampou um comic book com o seu nome.

Após a morte do marido, sua viúva, Rachel Robinson fundou a Fundação Jackie Robinson. A fundação oferece bolsas de estudo para jovens de classes baixas que esperam cursar o ensino superior e também tem como objetivo preservar o legado do Hall da Fama do Beisebol. A filha de Robinson, Sharon Robinson, tornou-se uma parceira, educadora, diretora de programação educativa da MLB e foi autora de dois livros sobre o pai.

Sua história virou também um filme em 2013. “42” foi dirigido por Brian Helgeland, e Jackie foi interpretado por Chadwick Boseman, enquanto Harrison Ford faz o papel de Branch Rickey. .

Sem dúvidas Robinson foi um dos maiores jogadores de basebol de todos os tempos. Mas ele transcendeu isso e se tornou um marco na questão racial nos EUA. Ele foi mais que um atleta. Ele foi um homem histórico e ficará para sempre lembrado pela sua coragem e pioneirismo.

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