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Copa do Mundo, Futebol Internacional

HISTÓRIAS DE COPAS | 1966 – A VITÓRIA DO PRAGMATISMO

Escrito em: 20/05/2018 às 12:35   /   por   /   comentários (0)

Por Matheus de Oliveira

Como diriam os antigos, “a primeira a gente nunca esquece”. E realmente os ingleses levaram isso a ferro e fogo. A copa de 1966, realizada na Inglaterra, foi polêmica desde o início e se tornou uma das mais inesquecíveis das lendárias séries de mundiais. Vencida pelo país sede, a competição foi motivo de várias contestações, inclusive até a taça foi furtada. Mas isso falaremos mais abaixo.

Inglaterra campeã. FOTO:

Inglaterra campeã. FOTO: Foto: PopperFoto- Getty

O pré-copa e o boicote africano

O inglês Arthur Drewry, era o presidente da Fifa no 32ª Congresso da entidade, em 22 de agosto de 1960, que resolveria onde seria realizada a Copa de 1966. Coincidentemente, o seu país de origem foi o escolhido, vencendo a disputa contra grandes países como Espanha e Alemanha. Os espanhóis desistiram antes mesmo da votação começar e viram os alemães perderam por um placar apertado, na bacia das almas: 34 a 27. O motivo alegado para a escolha dos inventores do futebol foi a comemoração do centenário da entidade. Estádios lendários como Old Trafford e Villa Park, de Manchester United e Aston Villa, times bastante populares na terra da rainha, foram palcos de alguns dos grandes jogos da competição.

Na época, a FIFA contava com 110 países filiados e 71 deles se candidataram para disputar o Mundial. Desses, dois foram suspensos por motivos políticos: Coreia do Sul e África do Sul (pelo apartheid). Os outros 18 países africanos resolveram não participar também, em protesto ao fato do continente não ter uma vaga em que premiasse o melhor colocado, garantindo a colocação no Mundial. Os país vencedor disputaria essa vaga com o melhor de outro continente, no caso, contra a Oceania e Ásia. A questão contra o país sul-africano também pesou. No fim da história, a Coreia do Norte acabou herdando a vaga.

O roubo da taça

Não bastasse as várias polêmicas pré-mundial, outra ganharia também as manchetes de todos os jornais da época. Antes da Copa do Mundo começar, como é de praxe, a Taça sempre é exposta em algum local de grande visitação, porém, o troféu Jules Rimet foi roubado da exposição, em Londres. A polícia britânica tentou, mas não conseguiu dar rumos finais e encontrar seu paradeiro.

O fato curioso (e hilário) ocorreu alguns dias depois, quando o inglês David Corbett passeava com seu cachorro Pickles e, ao vê-lo farejar um arbusto qualquer, acabou localizando o troféu enrolado em jornais. A FA desesperada já havia mandado que fizessem uma réplica, caso não encontrassem a original a tempo. A ‘taça’ está exposta até hoje no National Football Museum, na Inglaterra.

O mascote e a abertura da Copa

World Cup Willie, o mascote da Copa foi o primeiro da história dos mundiais e um dos primeiros a ser associado com uma competição esportiva importante. Willie é um leão, símbolo típico do Reino Unido, vestindo uma camisa com a Union Flag com as palavras “WORLD CUP”.

O mascote Willie, o primeiro das Copas.
FOTO: Divulgação

Cabe lembrar também que a Copa de 66 marcou a primeira cerimônia de abertura. Como tudo na Inglaterra, o jogo de abertura teve todo um protocolo cerimonial que contou até mesmo com a presença da rainha Elizabeth. Só não teve a presença do gol. Inglaterra e Uruguai empataram em 0x0.

A epopeia da Coreia do Norte

Oriunda da vaga dos times brigões, a seleção asiática, foi uma das estreantes ao lado de Portugal. A Coreia do Norte teve uma saga até então inimaginável para um país extremamente pobre e que vivia na fome. Uma das maiores repúblicas socialistas do mundo, que nunca ninguém esperava conseguir avançar de fase, acabou chegando nas quartas de finais da competição, após vencer uma grande potência europeia: a Itália, por 1×0, se qualificando para a fase de mata-mata da competição.

A equipe Coreana treinou durante mais de um ano para a Copa e a sua preparação foi quase eficaz, pois esteve perto de eliminar Portugal, fazendo gol com um minuto de jogo e abrindo um 3-0 (!). Porém, recheada de uma qualidade incrível, a seleção portuguesa comandada pelo ídolo Eusébio (que fez 4 gols) acabarou virando o placar para um histórico 5 a 3, eliminando a seleção treinada por Re Hyun Myung no Estádio Goodison Park, em Liverpool.

Alguns rumores surgiram devido a boa campanha e semelhança física dos atletas. Alguns chegaram a dizer que a Coreia do Norte enganava a todos, por falta de fiscalização por parte da FIFA e dos organizadores da Copa. Os jogadores norte-coreanos, que eram bastante parecidos, atuavam com 11 na primeira etapa e na hora do intervalo, mudavam as camisas no vestiário e vinham pro segundo tempo com 11 jogadores diferentes. Várias teorias conspiratórias.

O fracasso do Brasil

Bicampeã em 1958 e 1962, a seleção era uma das favoritas ao tricampeonato, mas acabou cometendo muitos erros durante sua preparação e pagou caro por isso. Durante a fase pré-copa, foram convocados mais de 40 jogadores, até que o técnico Vicente Feola convocasse a lista final. Pessoas ligadas a CBD (antiga CBF), disseram que haviam poucos jogadores do Corinthians na lista – na época a equipe paulista tinha Garrincha e vinha em um ótimo momento técnico. Vindo disso, sugeriram que fosse convocado o zagueiro Ditão. Na hora de datilografar os nomes de batismo, a secretária escreveu o nome de outro Ditão, o do Flamengo. Para não serem vítimas de contestações, decidiram deixar a lambança e convocaram o defensor do time carioca.

Além dessa pérola, que foi uma das menores, a seleção bicampeã não conseguiu sequer passar de fase. Acabou ficando em terceiro lugar no grupo, sendo derrotada por Portugal e a inexpressiva Hungria (que não era nem a sombra do time histórico de Puskas). Fechando a participação no mundial com apenas uma vitória, em três jogos, contra a lanterna Bulgária, por 2 a 0. Pelé não enfrentou a Hungria, pois se machucou no primeiro jogo, devido a fúria dos Búlgaros. Sem o craque, na época com 26 anos, o Brasil levou a pior e foi derrotado por 3 a 1. Com esse resultado ruim, o Brasil faria o jogo da classificação contra Portugal. Entretanto, com o Rei do futebol novamente fora e com nove alterações em relação ao confronto anterior (até Garrincha foi sacado), a Seleção perdeu pelo mesmo placar.

Pelé na vitória do Brasil por 2x0 sobre a Bulgária.

Pelé na vitória do Brasil por 2×0 sobre a Bulgária. FOTO: Divulgação – Canario Centenário

O resultado foi a queda precoce e o castigo à preparação mal feita, concretizando a segunda pior campanha da seleção em mundiais. Muitos dizem que Feola nunca achou o time ideal e isso ficou evidente na Copa, tendo em vista que 20 dos 22 jogadores convocados foram aproveitados em uma época na qual as substituições ainda eram proibidas.

O caso Rattin

No dia 23 de julho, no Estádio de Wembley, na capital Londres, em um jogo válido pelas quartas-de-final, há 10 minutos do fim do primeiro tempo, Inglaterra e Argentina empatavam sem gols. Foi quando o árbitro marcou uma falta do zagueiro Perfumo sobre o atacante Bobby Charlton, na entrada da área. Perfumo contestou a marcação e Rattín entrou em cena, apontando para a braçadeira de capitão e fazendo sinais ao juiz alemão Rudolf Kreitlein. Ele queria argumentar sobre o lance, mas o juiz não entendia espanhol. Kreitlein então não quis saber e observando a efusividade do jogador, mandou Rattín para fora do campo. Atônito, o argentino pediu um tradutor, mas o alemão já tinha decidido que ele estava expulso. O episódio fez com que a FIFA percebesse que deveria inventar algo não-verbal para que os juízes pudessem advertir os jogadores. Foi aí que surgiram os cartões amarelo e vermelho, que foram instituídos a partir da Copa de 1970.

O show de Eusébio e Yashin

Estreante, a seleção de Portugal acabou sendo uma das grandes sensações do mundial, chegando a terminar a Copa em 3º lugar. O maior responsável foi, sem dúvidas, um certo moçambicano, de nome Eusébio da Silva Ferreira. Ele era um dos jogadores nascidos em ex-colônias africanas que aportaram em terras portuguesas na década de 1960. O atacante tinha uma técnica notável e força física incomum. Foi o grande algoz do Brasil na primeira fase e fechou a competição como o artilheiro, com nove gols. Foi o grande responsável pela eliminação da Coreia do Norte, ao fazer incríveis quatro gols, após sua seleção estar perdendo de 3×0. Em clubes, também teve uma carreira brilhante no Benfica, onde foi campeão europeu em 1962, além de ter sido bicampeão do campeonato português.

Já contamos a história do Pantera Negra no Gênios do Esporte, que você confere aqui.

Famoso pelo talento e coragem de suas defesas durante toda a carreira, o goleiro soviético Lev Yashin disputa até hoje com o inglês Gordon Banks a camisa 1 da seleção dos melhores jogadores da história das Copas. O Aranha negra, como era conhecido, defendeu uma bola nos pés de um atacante e quase teve a cabeça arrancada. Na primeira fase, só foi titular na vitória contra a Itália. Mas sua qualidade se sobressaiu nas quartas de final, contra Hungria, onde voltou ao gol e foi o grande personagem do jogo, fazendo doze defesas antológicas e sendo o responsável direto pela classificação da União Soviética, que venceu os húngaros por 2×1. Yashin, inclusive, ganhou o prêmio de goleiro do ano da URSS, em 1966.

O histórico duelo entre Yashin e Eusébio na disputa de 3º llugar.

O histórico duelo entre Yashin e Eusébio na disputa de 3º llugar. FOTO: Getty Imagens

No mundial de 2018, no país do lendário goleiro, Lev ganhou uma homenagem e tanto, sendo capa do pôster oficial da competição, divulgado pela FIFA em 28 de Novembro de 2017. Yashin e Eusébio se encontraram na decisão de terceiro lugar, onde os portugueses se deram melhor, vencendo por 2 a 1, um dos gols foi feitos pelo grande artilheiro.

O polêmico título inglês

Muitos dizem que além do futebol feio, fruto de um pragmatismo britânico – que fez os clubes do país serem soberanos durante anos no continente, na antiga Copa dos Campeões – a entidade acabou sendo beneficiada por um erro de arbitragem. O jogo foi emocionante e deixou os 120 mil espectadores em Wembley de cabelo em pé. Haller abriu o placar para os alemães aos 12 minutos, e Hurst empatou aos 18. No segundo tempo, Peters virou para os ingleses aos 33, mas Weber, empatou aos 44, levando a partida para a prorrogação. Foi quando houve o lance fatal.

A polemica cabeçada de Hurst.

A polemica cabeçada de Hurst. FOTO: Agencia AP

Aos 11 do 1º tempo da prorrogação, Hurst chutou forte e a bola bateu no travessão, tocou no chão e voltou. O alemão Hottges, de cabeça, mandou para fora e os ingleses levantaram os braços pedindo gol. Na dúvida, o árbitro consultou o auxiliar para saber se a bola havia mesmo ultrapassado a linha, o que não aconteceu. Mas o gol foi confirmado. Aos 15 do 2º tempo, quando houve até uma invasão de torcedores que consideravam a partida encerrada, Hurst entrou livre e fez gol do título.

Com invasão e tudo, Hurst fechou o placar.

Com invasão e tudo, Hurst fechou o placar. FOTO: Getty Images

Foi a primeira e única taça da Inglaterra. Com certeza é digna de muito orgulho dos ingleses, mas para quem não é – principalmente os alemães – até hoje que o título é tido como injusto. Justo ou não, o que importa é que a taça segue sendo uma das maiores honrarias da seleção britânica. Numa Copa que com certeza ficou para a história. Com toda pompa e circunstância que a terra da rainha existe.

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